AleaSoft Energy Forecasting, 4 de setembro de 2026. Espanha precisa de mais geração renovável, mas também de nova procura de eletricidade capaz de a absorver. A regulamentação proposta para os centros de dados é exigente, mas abre uma oportunidade para ligar nova procura a nova geração, armazenamento e PPA.
O crescimento dos centros de dados tornou-se um dos grandes debates do setor elétrico. A expansão da computação em nuvem, a digitalização da economia e, sobretudo, o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial estão a multiplicar a necessidade de capacidade de computação. A consequência é clara: os centros de dados precisam de muita eletricidade.
A Agência Internacional de Energia estima que os centros de dados consumiram cerca de 415 TWh em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. No seu cenário central, esse consumo poderá atingir cerca de 945 TWh em 2030.
Uma economia que procura descarbonizar-se através da eletrificação precisa de produzir muita eletricidade renovável, mas também precisa de consumidores capazes de a utilizar. Espanha começa a precisar precisamente disso: nova procura de eletricidade.
A transição entra numa nova fase
Durante anos, o debate centrou-se sobretudo em como instalar mais renováveis. Esse objetivo continua a ser essencial, mas já não é suficiente. A próxima fase exige que a geração, as redes, o armazenamento e a procura cresçam de forma coordenada.
A transição energética precisa de mais energia renovável e, em paralelo, de mais procura capaz de a consumir. Os centros de dados podem tornar-se um dos grandes motores dessa nova procura.
Espanha tem diante de si a possibilidade de combinar duas transformações que marcarão as próximas décadas: a revolução da inteligência artificial e a transição para uma economia descarbonizada baseada em eletricidade renovável. Uma boa regulamentação deve garantir que ambas se reforcem mutuamente.
Espanha precisa de procura, não apenas de renováveis
Durante grande parte das duas últimas décadas, o principal objetivo da transição energética europeia foi aumentar a capacidade de geração renovável. Espanha avançou extraordinariamente nessa direção. O crescimento da energia fotovoltaica e eólica está a transformar a estrutura do mercado elétrico, a reduzir as emissões e a diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados.
Mas o sucesso das renováveis cria novos desafios. Quando a produção solar é muito elevada nas horas centrais do dia, aumenta o número de horas com preços muito baixos ou negativos, surgem cortes da geração renovável e o preço capturado por certas tecnologias desce. A chamada canibalização dos preços não significa que exista demasiada capacidade renovável, significa que a transformação do sistema não pode acontecer apenas do lado da oferta.
Ao mesmo tempo, são necessárias mais redes, mais armazenamento de energia, mais interligações e, sobretudo, mais eletrificação da procura. Os veículos elétricos, as bombas de calor, a eletrificação industrial, o hidrogénio renovável e os centros de dados fazem parte dessa segunda metade da transição. O problema de Espanha já não é apenas como produzir mais eletricidade renovável, é também como criar procura limpa suficiente para a consumir e tornar financiável a próxima vaga de investimento renovável.
Os centros de dados podem ser uma das grandes novas fontes de procura limpa
Do ponto de vista energético, os centros de dados apresentam características particularmente interessantes. São grandes consumidores de eletricidade, têm perfis relativamente previsíveis e os seus investimentos são planeados em horizontes de longo prazo. Além disso, o seu consumo de energia é fundamentalmente elétrico.
Isso distingue-os de muitas indústrias tradicionais cuja descarbonização exige primeiro substituir processos baseados em gás natural, carvão, coque ou derivados do petróleo. Um centro de dados corretamente concebido pode arrancar com um abastecimento elétrico quase totalmente descarbonizado.
Isto não significa que o seu impacto ambiental seja nulo. A eficiência energética, os sistemas de arrefecimento, o consumo de água, os geradores de emergência, os materiais utilizados e a localização territorial têm de ser analisados. Mas, do ponto de vista da eletrificação, um centro de dados pode ser uma das grandes novas indústrias mais limpas que Espanha pode atrair.
E uma das suas características mais criticadas, o elevado consumo de eletricidade, pode tornar-se precisamente um dos seus maiores contributos para o sistema. Um centro de dados de 100 MW a operar com um fator de utilização de 90% consumiria cerca de 788 GWh por ano. Se essa procura for coberta por nova geração renovável, deixa de ser mero consumo e passa a ser um motor de investimento.
A nova regulamentação espanhola muda as regras
A 27 de agosto de 2026, o Governo submeteu a consulta pública, com caráter de urgência, um projeto de decreto real sobre a sustentabilidade energética e ambiental, a resiliência e a soberania digital dos centros de dados. A proposta estabelece requisitos exigentes e condiciona o acesso à rede elétrica ao cumprimento de determinadas obrigações.
O elemento mais relevante para o sistema elétrico é que os centros abrangidos pela regulamentação terão de cobrir pelo menos 80% do seu consumo de eletricidade com nova geração renovável em cada hora de funcionamento, enquanto a geração renovável não ultrapassar 90% do mix. Além disso, a energia terá de cumprir um critério de adicionalidade: cada novo megawatt consumido terá de corresponder a um novo megawatt renovável instalado nos 18 meses anteriores ao arranque, através de autoconsumo ou de contratos a prazo como os PPA.
O cumprimento não é meramente declarativo. O projeto prevê sobretaxas crescentes sobre encargos e tarifas de acesso e, em última instância, a perda dos direitos de acesso e ligação. Trata-se, portanto, de uma regulamentação exigente, não de uma simples recomendação de sustentabilidade.
O requisito «hora a hora» é a verdadeira mudança
A parte mais transformadora da proposta não é apenas a percentagem renovável, é a correlação horária. Não bastará demonstrar que, no conjunto do ano, um centro de dados contratou tantos MWh renováveis quantos consumiu. Em cada hora de funcionamento, pelo menos 80% da eletricidade consumida terá de corresponder a energia renovável gerada nessa mesma hora.
Isto muda completamente a conceção do abastecimento. Um centro de dados funciona 24 horas por dia, enquanto uma central fotovoltaica concentra a sua produção nas horas solares. Um PPA solar por si só terá, portanto, dificuldade em resolver o problema. Será necessário combinar perfis complementares de geração solar e eólica, armazenamento, contratos de fornecimento e um certo grau de exposição aos preços do mercado elétrico.
Cada grande centro de dados torna-se assim um exercício de ajuste de perfis horários: quanto solar, quanto eólico, quanta capacidade de baterias e que estrutura contratual permitem cumprir o objetivo renovável ao menor custo e com um nível de risco aceitável.
Um problema de otimização a vinte anos
A verdadeira questão já não será simplesmente a que preço comprar a eletricidade. Será qual é a arquitetura de abastecimento ótima ao longo de vinte ou trinta anos. Podemos contratar mais solar, combiná-lo com eólico, dimensionar uma bateria de duas, quatro ou seis horas, estruturar um ou vários PPA, manter parte da exposição em regime merchant ou introduzir flexibilidade em certas cargas. Todas estas decisões interagem entre si.
Além disso, uma solução ótima em 2027 não se manterá necessariamente ótima em 2035. Os preços horários mudam, os perfis de geração evoluem, a penetração das renováveis aumenta, os spreads deslocam-se, as baterias degradam-se e a regulamentação pode mudar. Não se trata, portanto, de um simples problema de contratação de eletricidade, mas de um problema de otimização energética, económica e financeira de longo prazo.
Os PPA e o armazenamento ganham valor
A adicionalidade pode transformar os centros de dados em compradores de energia de longo prazo capazes de dar visibilidade de receitas a novos projetos solares e eólicos. Essa visibilidade é um dos elementos essenciais para o financiamento de projetos renováveis. A cadeia de valor pode ser muito poderosa: nova procura estável, PPA de longo prazo, maior bancabilidade e nova capacidade renovável.
O requisito horário acrescenta uma segunda camada. Os PPA terão de evoluir de uma lógica baseada sobretudo no preço médio e no volume anual para estruturas que tenham em conta o perfil de produção. Para um consumidor que funciona 24 horas por dia, nem todos os MWh têm o mesmo valor. A complementaridade entre solar e eólico ganha valor, tal como a previsão horária, o armazenamento e a capacidade de gerir a exposição residual ao mercado.
As baterias podem desempenhar um papel central ao deslocar excedentes das horas de elevada geração para as horas com menor cobertura renovável. Mas também não existe uma dimensão ótima universal. Uma bateria maior pode melhorar a cobertura horária, embora aumente o investimento, e uma maior duração pode deslocar mais energia, mas não necessariamente gerar retornos proporcionais. O dimensionamento deve ser feito em conjunto com o perfil de procura, a carteira renovável e os preços esperados.
A rede elétrica continua a ser o limite físico
Defender o valor dos centros de dados não significa ignorar as suas limitações. Um projeto de centenas de megawatts concentra uma procura enorme num ponto específico da rede. A Agência Internacional de Energia alerta que o impacto local dos centros de dados pode ser muito maior do que o seu peso na procura mundial de eletricidade e que os estrangulamentos da rede podem atrasar uma parte significativa dos projetos planeados.
Espanha já está a sentir a dimensão do desafio de ligar nova procura. A Red Eléctrica comunicou em julho de 2026 que 16 instalações de consumo renunciaram total ou parcialmente às licenças de acesso, libertando 1040 MW na rede de transporte após a entrada em vigor do novo regime de reserva de capacidade. A capacidade de acesso é um recurso escasso e deve ser atribuída a projetos firmes e viáveis, mas a resposta estrutural não pode ser apenas restringir: a rede também precisa de ser reforçada.
Não é possível desenvolver uma política industrial baseada na eletrificação sem desenvolver em paralelo a infraestrutura elétrica necessária. Geração, procura, armazenamento e redes têm de ser planeados de forma coordenada.
Regular sem afastar o investimento
Há dois erros opostos que convém evitar. O primeiro seria considerar que qualquer centro de dados é positivo simplesmente porque representa investimento. Nem todos os projetos têm a mesma eficiência, firmeza, localização, consumo de água ou contributo para o sistema. É razoável exigir compromissos reais e impedir que pedidos especulativos bloqueiem durante anos a capacidade de acesso.
O segundo erro seria impor condições tão rígidas que os projetos viáveis acabem por se instalar noutros países. Os centros de dados são investimentos internacionais e Espanha compete com outros mercados europeus. A regulamentação deve combinar requisitos ambientais e energéticos com segurança jurídica, previsibilidade e viabilidade técnica.
As estimativas da SpainDC, a associação dos centros de dados em Espanha, mostram a dimensão da oportunidade. Segundo o seu Relatório Anual 2025, a potência IT instalada em centros de dados comerciais atingiu 439 MW no final de 2025, mais 24% do que um ano antes, e o investimento acumulado direto e indireto poderá atingir 66 900 milhões de euros entre 2025 e 2030 se o mercado mantiver a tendência atual. São estimativas do próprio setor e devem ser lidas como tal, mas mostram a dimensão das decisões em jogo.
Espanha tem uma oportunidade industrial e energética
Espanha reúne vários elementos favoráveis para se tornar um hub europeu de centros de dados: recursos solares e eólicos abundantes, penetração renovável crescente, conectividade internacional, infraestruturas de telecomunicações, capital humano e uma posição geográfica estratégica. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está a acelerar a procura global de capacidade de computação.
A coincidência entre esta expansão digital e a necessidade de eletrificar a economia é uma oportunidade difícil de repetir. A política certa não deve procurar ter menos centros de dados, mas garantir que os que se instalam sejam eficientes, sustentáveis, firmes, bem localizados e capazes de contribuir para o desenvolvimento de nova geração renovável e armazenamento.
A metodologia AleaSoft, previsão e inteligência artificial aplicadas à nova arquitetura de abastecimento
Conceber o abastecimento de um centro de dados segundo estas regras é um problema de otimização de longo prazo: que combinação de solar, eólico, armazenamento e PPA permite cobrir 80% de cada hora do ano durante décadas, ao menor custo e com risco controlado.
Resolvê-lo exige combinar previsões horárias de preços e de produção, cenários de mercado, degradação das baterias, perfis de consumo e múltiplas configurações tecnológicas e contratuais. A inteligência artificial e os algoritmos de otimização permitem explorar um número muito elevado de alternativas, mas precisam de uma base essencial: modelos energéticos robustos e previsões de longo prazo.
Na AleaSoft Energy Forecasting desenvolvemos há mais de 27 anos modelos de previsão baseados em inteligência artificial, estatística e análise fundamental para os mercados de energia. Combinar estas previsões com algoritmos de otimização permite dar mais um passo: utilizá-las para analisar e otimizar decisões de investimento e de abastecimento de longo prazo, avaliando conjuntamente custo, cobertura renovável e risco.
Centros de dados, BESS, geração renovável e PPA são precisamente uma das áreas em que esta combinação de previsão, inteligência artificial e otimização pode gerar mais valor nos próximos anos.
Fonte: AleaSoft Energy Forecasting.
