AleaSoft Energy Forecasting, 15 de outubro de 2026. Os preços capturados da energia fotovoltaica desceram porque a produção renovável cresceu mais depressa do que a procura. Os centros de dados, a eletrificação e o armazenamento começam a mudar essa relação. Integrá-los exige redes, regulação e planeamento adequados, mas abre uma etapa em que a nova procura dará valor à energia renovável e ao armazenamento, embora as eleições antecipadas acrescentem incerteza quanto aos prazos.

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Os centros de dados estão a tornar-se um dos principais motores de crescimento da procura de eletricidade em Espanha. O desenvolvimento da inteligência artificial, dos serviços na nuvem e da digitalização está a impulsionar projetos de uma escala que há poucos anos era difícil imaginar e que podem ter um impacto significativo na evolução do sistema elétrico ao longo da próxima década.

Espanha dispõe de condições especialmente favoráveis para atrair estes investimentos: abundantes recursos renováveis, uma posição geográfica estratégica, boas infraestruturas de telecomunicações e um mercado de eletricidade cada vez mais integrado, com uma elevada penetração de energias renováveis. Mas transformar esta oportunidade em desenvolvimento económico exige mais do que dispor de eletricidade renovável. Será necessário garantir capacidade de acesso à rede, um abastecimento competitivo e fiável durante todas as horas do ano e uma integração eficiente desta nova procura.

Preços capturados: a procura muda a equação

Ao longo da última década, a potência fotovoltaica e eólica cresceu muito rapidamente e, nas horas solares, a produção supera frequentemente a procura. Só em 2025, Espanha acrescentou 8,8 GW de potência fotovoltaica e 1,2 GW de potência eólica, enquanto a procura cresceu 2,8%, para 256 086 GWh, segundo a Red Eléctrica. No primeiro semestre de 2026 registaram-se 557 horas de preços negativos no mercado diário. O preço capturado da energia fotovoltaica passou de 42,53 €/MWh em 2024 para 35,47 €/MWh em 2025 e para 38,87 €/MWh entre 1 de janeiro e 14 de outubro de 2026.

Esta situação reflete um desajuste temporário entre a oferta e a procura, e não uma característica permanente do sistema. A equação começa a mudar do lado da procura. Os centros de dados precisam de eletricidade limpa e fiável 24 horas por dia e podem repercutir o seu custo nos serviços digitais que vendem, pelo que estão dispostos a competir por PPA renováveis de longo prazo. A eletrificação da indústria e dos transportes, as bombas de calor, os veículos elétricos, o hidrogénio renovável e os próprios centros de dados irão competir por uma produção renovável que terá de crescer rapidamente. O Plano Nacional Integrado de Energia e Clima de Espanha (PNIEC) prevê que a procura de eletricidade cresça 34% face a 2019 até 2030 e que a eletrificação da economia atinja 35%.

O armazenamento acrescenta também procura nas horas em que atualmente há excesso de energia. As baterias armazenam eletricidade quando a produção renovável é abundante e os preços são baixos, e libertam-na quando escasseia. O PNIEC prevê 22,5 GW de armazenamento em 2030, face aos 3427 MW instalados no final de 2025, segundo a Red Eléctrica. A nível mundial, a IEA estima que o consumo de eletricidade dos centros de dados passe de 415 TWh em 2024 para cerca de 945 TWh em 2030. Mais renováveis, muito mais armazenamento e uma procura crescente não apontam para um cenário de preços estruturalmente baixos. O futuro será renovável, mas não necessariamente de preços baixos, e nesse cenário os preços capturados da energia fotovoltaica têm margem para recuperar.

Mais de 6 GW de acesso concedidos na rede de transporte

Segundo o mapa de capacidades de acesso da procura publicado pela Red Eléctrica a 1 de outubro, os centros de processamento de dados acumulavam 6329 MW de capacidade de acesso concedida na rede de transporte, ou seja, 34,2% dos 18,52 GW atribuídos a instalações de procura. É a categoria com mais capacidade concedida, e nenhum desses 6329 MW estava ainda em serviço.

O volume é ainda maior quando se incluem as redes de distribuição. A memória justificativa que acompanha o projeto de Real Decreto sobre centros de dados, do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico (MITECO), indica que foram concedidos mais de 6 GW na rede de transporte e cerca de outros 6 GW na distribuição. Estes valores superam amplamente as estimativas de implantação da Estratégia de Inteligência Artificial 2024, que prevê cerca de 2,5 GW de capacidade de computação em 2030, equivalentes a entre 3,5 e 4 GW de procura de eletricidade.

Existe, portanto, uma diferença considerável entre a capacidade solicitada ou concedida e a potência que deverá acabar por se materializar. Esta situação evidencia a importância de distinguir os projetos firmes daqueles que poderão nunca chegar a ser construídos e de evitar que uma capacidade de rede escassa permaneça reservada durante longos períodos sem se materializar.

Regulação específica para os centros de dados

O rápido crescimento destas instalações levou o Governo a preparar um quadro regulatório específico. O projeto de Real Decreto sobre a sustentabilidade energética e ambiental, a resiliência e a soberania digital dos centros de dados foi submetido a consulta pública entre 27 de agosto e 10 de setembro, e a CNMC, o regulador espanhol dos mercados e da concorrência, emitiu o seu parecer sobre o mesmo a 22 de setembro.

O projeto aplicar-se-ia, em geral, a centros de dados com uma capacidade de acesso igual ou superior a 1 MW e estabelece requisitos relativos à eficiência energética, ao consumo de água, à resiliência, à soberania digital e ao abastecimento a partir de nova produção renovável. Um dos elementos que mais debate tem gerado é a proposta de que, em determinadas condições, pelo menos 80% da eletricidade consumida em cada hora esteja coberta por produção renovável gerada nessa mesma hora, juntamente com requisitos de adicionalidade da produção renovável.

A CNMC partilha os objetivos gerais de sustentabilidade, mas recomendou introduzir uma maior flexibilidade na sua aplicação. Entre outras considerações, assinala que exigir nova produção adicional mesmo durante horas com excedentes renováveis, curtailment ou preços muito baixos ou negativos poderia gerar sinais ineficientes. Precisamente nessas horas, a nova procura pode facilitar a integração da produção renovável disponível.

Esta questão é especialmente relevante num sistema como o espanhol, com uma penetração crescente da energia solar fotovoltaica e eólica. Em vez de impor um padrão uniforme em todas as horas, a regulação pode favorecer sinais que incentivem o consumo quando as renováveis são abundantes e a utilização do armazenamento e de outras fontes de flexibilidade quando a disponibilidade é menor.

Novos requisitos para a ligação às redes

Paralelamente à regulação específica para os centros de dados, o Governo está a tramitar outra norma com implicações diretas para estas instalações. A 13 de outubro, o Conselho de Ministros autorizou a tramitação administrativa urgente do projeto de Real Decreto que estabelecerá novos requisitos mínimos de conceção, equipamento, funcionamento e segurança para as instalações que se liguem às redes elétricas de transporte e distribuição. A norma não se dirige exclusivamente aos centros de dados, mas estes serão um dos tipos de nova procura mais afetados pela sua aplicação.

O objetivo é adaptar os requisitos de ligação a um sistema elétrico muito diferente daquele que existia quando as regras atuais foram concebidas. Entre outras medidas, a proposta exige que as instalações de procura sejam capazes de suportar determinadas cavas de tensão. Segundo o MITECO, esta capacidade permitiria reduzir as restrições decorrentes da interação entre diferentes nós e fazer aflorar capacidade de acesso que atualmente não pode ser concedida, além de reforçar a segurança da operação do sistema.

Esta evolução regulatória é relevante porque mostra que a expansão física das redes não é a única forma de aumentar a sua capacidade. Melhorar o comportamento técnico das novas instalações, gerir adequadamente a procura e utilizar de forma mais eficiente as infraestruturas existentes também pode permitir ligar novos projetos.

Renováveis, armazenamento e flexibilidade

O crescimento dos centros de dados pode também tornar-se um importante impulso para o investimento em nova produção renovável. Uma procura elevada e relativamente estável oferece visibilidade a longo prazo aos produtores e pode facilitar estruturas contratuais como os PPA. Mas a produção renovável, por si só, não garante um abastecimento que corresponda ao perfil de consumo de um centro de dados durante as 24 horas do dia.

A energia fotovoltaica produz sobretudo durante as horas solares e a produção de energia eólica depende das condições meteorológicas. Ao mesmo tempo, os centros de dados têm perfis de consumo muito mais estáveis. A combinação de diferentes tecnologias renováveis, armazenamento de bateria, gestão da procura e participação nos mercados pode ajudar a reduzir este desfasamento. A própria CNMC considera que o desenho regulatório deveria incentivar o armazenamento, a diversificação de tecnologias renováveis e as configurações híbridas capazes de deslocar energia de períodos de maior produção renovável para horas de menor disponibilidade.

Esta tendência pode também abrir novas oportunidades para os projetos BESS. As baterias podem complementar os PPA renováveis, otimizar o perfil de compra de eletricidade, reduzir a exposição às horas de preços mais elevados e, consoante a sua configuração e a regulação aplicável, participar simultaneamente em diferentes mercados e serviços de sistema.

A rede será um dos fatores determinantes

O crescimento dos centros de dados coincide também com uma transformação muito mais ampla da procura de eletricidade. A eletrificação da indústria e dos transportes, a produção de hidrogénio renovável, as novas habitações e outros usos vão também precisar de capacidade de ligação.

A proposta de planeamento da rede de transporte para 2030 reflete esta transformação. Na sua versão inicial, submetida a consulta pública no outono de 2025, previa servir 3,8 GW associados a centros de processamento de dados, no âmbito de um crescimento muito mais amplo da nova procura ligada à rede. Após os contributos recebidos durante a consulta, o investimento previsto no planeamento elétrico já ultrapassa os 17 000 milhões de euros, segundo o MITECO.

A localização dos novos centros de dados dependerá da disponibilidade de terrenos, da conectividade digital e dos recursos hídricos, mas a capacidade real da rede e o tempo necessário para obter acesso e ligação serão fatores cada vez mais determinantes para as decisões de investimento.

As eleições antecipadas introduzem incerteza regulatória

Junta-se agora a este processo um novo elemento de incerteza. O Real Decreto 806/2026, de 5 de outubro, dissolveu o Congresso e o Senado e convocou eleições gerais para 29 de novembro de 2026.

O projeto de regulação específica para os centros de dados é um Real Decreto e, por conseguinte, a sua aprovação definitiva não exige uma votação no Parlamento. No entanto, as eleições antecipadas reduzem o tempo disponível e acrescentam incerteza quanto ao momento em que os procedimentos pendentes serão concluídos e quanto ao conteúdo final da norma. Esta incerteza é especialmente relevante para investimentos com horizontes de várias décadas, para os quais a estabilidade regulatória é essencial.

Ao mesmo tempo, a decisão do Conselho de Ministros de 13 de outubro de acelerar a tramitação dos novos requisitos técnicos de ligação mostra uma vontade de avançar com algumas das alterações regulatórias antes das eleições.

Uma oportunidade para o sistema elétrico espanhol

O crescimento dos centros de dados coloca desafios importantes, mas não se trata apenas de um aumento do consumo de eletricidade. Uma nova procura estrutural pode ajudar a absorver uma parte crescente da produção renovável, favorecer novos investimentos e oferecer sinais de longo prazo para tecnologias como a eólica, a solar fotovoltaica e o armazenamento. Pode também impulsionar novas soluções de flexibilidade e uma utilização mais eficiente das redes.

Para que isso aconteça, será necessário coordenar o crescimento da procura com o desenvolvimento da produção, do armazenamento e das redes. O seu contributo para o sistema dependerá de a regulação, o planeamento e os sinais de mercado permitirem transformar esse crescimento em novos investimentos em renováveis e armazenamento, em vez de resultar numa maior pressão sobre as redes. Esse equilíbrio entre digitalização, eletrificação e desenvolvimento renovável será um dos grandes desafios do sistema elétrico espanhol ao longo da próxima década.

Previsões de longo prazo para a nova procura: o papel da AleaGreen e da AleaStorage

Decidir onde localizar um centro de dados, que estrutura de PPA assinar, que combinação de fotovoltaica e eólica contratar ou que dimensão de bateria incluir são decisões com horizontes de vinte ou trinta anos. Para as tomar com confiança, é fundamental dispor de previsões de procura e de previsões de preços do mercado de eletricidade robustas, capazes de analisar cenários de longo prazo e determinar como evoluirão os perfis horários, os preços capturados, os spreads e as necessidades de flexibilidade à medida que crescem a procura, a produção renovável e o armazenamento.

Neste contexto, a AleaGreen, a divisão da AleaSoft Energy Forecasting especializada em previsões de longo prazo, fornece previsões de preços, procura e produção renovável com bandas de confiança para a avaliação de ativos, a estruturação de PPA e o financiamento de projetos de energias renováveis. Por sua vez, a AleaStorage analisa as receitas e os riscos de projetos de armazenamento de bateria ao longo de toda a sua vida útil, incluindo a sua hibridização com produção renovável e com grandes consumidores, como os centros de dados.

Fonte: AleaSoft Energy Forecasting

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